Saúde
Após saída de empresas citadas em apuração sobre PCC, Hetrin contrata empresa de médica investigada pela PF
FMC passou a fornecer serviços médicos ao hospital; contratação foi feita pelo IMED, organização social responsável pela gestão da unidade
Por Redação Trindade Uai

Uma empresa ligada à médica Gleycianne da Silva França, que responde a um inquérito que tramita na Polícia Federal e no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) por suspeita de simulação de concorrência, passou a fornecer serviços médicos ao Hospital Estadual de Trindade (Hetrin).
A contratação foi feita pelo Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (IMED), organização social responsável pela gestão do Hetrin por meio de contrato com o Governo de Goiás, através da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO). Na prática, é o IMED que administra a unidade e realiza contratações de empresas para a prestação de diferentes serviços dentro do hospital.
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O contrato nº 013/2026 foi firmado entre o IMED e a FMC Procedimentos Médicos Ltda. e tem como objeto a prestação de serviços médicos na unidade.
A proposta comercial vinculada ao contrato apresenta valor mensal estimado de R$ 1.878.314,29. O valor efetivamente pago, no entanto, depende da demanda de cada mês e dos valores unitários previstos para os serviços realizados.
A contratação tem duração inicial de 12 meses, com possibilidade de prorrogação conforme as condições estabelecidas no contrato e a vigência da gestão do IMED junto à SES-GO.
A contratação no Hetrin faz parte de um movimento mais amplo envolvendo a FMC, que também passou a fornecer profissionais para outros hospitais estaduais administrados pelo IMED.
Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles nesta segunda-feira (21), os contratos da empresa com três unidades — Hetrin, Hospital Estadual de Formosa (HEF) e Hospital Estadual de Uruaçu (HEU) — somam R$ 8,9 milhões por mês. O valor, portanto, não corresponde exclusivamente ao hospital de Trindade.
Empresas anteriores aparecem em apurações relacionadas ao PCC
A chegada da FMC ocorre em meio à saída de empresas que prestavam serviços em hospitais administrados pelo IMED e foram citadas em reportagens e investigações envolvendo pessoas e empresas apontadas pela polícia como intermediárias de uma rede de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo o Metrópoles, o IMED retirou da prestação de serviços em hospitais públicos de Goiás empresas como L2D, TL2 e Medic 360.
No caso específico do Hetrin, documentos disponíveis no próprio portal do hospital comprovam a passagem da TL2 Soluções Médicas e da Medic 360 Serviços Médicos pela unidade.
A TL2 manteve contrato para prestação de serviços médicos contínuos no Hetrin. Documentos do hospital registram a prestação dos serviços pela empresa desde contrato firmado em 2021.
A Medic 360, por sua vez, firmou o contrato nº 002/2025 com o IMED para prestação de serviços médicos no Hetrin. O próprio portal da unidade também disponibiliza termos aditivos relacionados à contratação.
O que as investigações apontam
Segundo apuração do Metrópoles baseada em documentos policiais, a TL2 e a L2D tiveram entre seus sócios o empresário Thiago Telles Batista de Souza. Telles foi indiciado por lavagem de dinheiro em investigação relacionada a intermediários do PCC.
A Medic 360 aparece em outra situação. Conforme reportagem do Metrópoles baseada em documentos da Polícia Civil de São Paulo, a empresa realizou, em maio de 2024, um pagamento de R$ 394 mil a uma empresa que, segundo a polícia, atuaria como intermediária financeira do PCC.
Na mesma apuração, entretanto, a Polícia Civil não relacionou a Medic 360 a Thiago Telles ou a outro investigado. A empresa negou envolvimento em qualquer ilícito.
Em setembro deste ano, a Medic 360 e uma de suas sócias também foram alvos de busca e apreensão da Polícia Civil do Tocantins. Essa operação faz parte de outra investigação, relacionada à gestão de recursos destinados a unidades de saúde em Palmas.
As investigações envolvendo essas empresas possuem objetos e circunstâncias diferentes. A citação de relações comerciais ou empresariais com pessoas ou empresas investigadas não significa, por si só, que as prestadoras integrem o PCC.
Mudança nos contratos
Segundo o Metrópoles, pelo menos desde junho o IMED passou a encerrar ou comunicar o encerramento de contratos com empresas citadas nessas apurações.
A Medic 360 afirmou ao veículo que sua saída dos hospitais administrados pelo IMED ocorreu por uma “avaliação interna e mercadológica”.
Empresários ligados a outras prestadoras disseram ter sido surpreendidos pelo encerramento dos contratos. As empresas e defesas ouvidas pelo Metrópoles negam irregularidades e sustentam, entre outros pontos, que os serviços contratados foram efetivamente prestados.
O IMED, segundo a reportagem publicada nesta segunda-feira, não informou quais empresas foram retiradas nem quais foram contratadas especificamente para substituí-las.
Nova empresa tem sócia investigada em outro caso
Em meio às mudanças, a FMC passou a fornecer médicos aos três hospitais estaduais administrados pelo IMED: Trindade, Formosa e Uruaçu.
Uma das sócias da empresa, Gleycianne da Silva França, é investigada em um inquérito que envolve também o deputado federal e ex-secretário de Saúde de Goiás Ismael Alexandrino (PSD-GO).
A investigação teve origem após apurações sobre contratos na área da saúde em Goiás e atualmente tramita na Polícia Federal e no TRF-1.
Segundo informações da investigação reproduzidas pelo Metrópoles, policiais apontaram suspeitas de irregularidades em processos de contratação que teriam beneficiado uma empresa ligada ao irmão de Ismael Alexandrino.
Gleycianne era representante da Fluir Gestão em Saúde. Segundo decisão judicial citada pela reportagem, investigadores apontaram que a empresa teria participado de processos utilizados para simular concorrência. A apuração menciona declarações apresentadas em 11 processos de seleção de fornecedores.
A suspeita investigada é de que essas disputas teriam favorecido a Amme Saúde Ltda., empresa ligada ao irmão do então secretário estadual de Saúde.
Médica e deputado negam irregularidades
Gleycianne nega as acusações. Sua defesa afirmou ao Metrópoles que a médica não participou de qualquer simulação de disputa ou ajuste destinado a favorecer Ismael Alexandrino, familiares ou empresas relacionadas a eles.
A defesa também destacou que Gleycianne não foi denunciada pelo Ministério Público.
Os atuais sócios da FMC, Gleycianne e o médico Lucas Nogueira Taveira Adorno, também negaram irregularidades nas novas contratações realizadas pelo IMED. Lucas não é investigado no inquérito envolvendo Gleycianne.
A defesa de Ismael Alexandrino também nega qualquer irregularidade. Ao Metrópoles, afirmou que o deputado não conhece Gleycianne e sustentou que as contratações de empresas e médicos não passavam pela Secretaria de Estado da Saúde.
A SES-GO, por sua vez, afirmou ao veículo que as contratações são realizadas pelas organizações sociais responsáveis pela administração das unidades e destacou a existência de mecanismos de fiscalização e controle dos contratos de gestão.
No Hetrin, o contrato nº 013/2026 entre IMED e FMC consta atualmente no portal oficial do hospital como contratação para prestação de serviços médicos.
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